Daniel Capítulo 7 – por Siegfried J. Schwantes

Introdução

Tendo estabelecido um fundamento firme para confiança em DEUS, o profeta passa a guiar seus leitores através dos vários episódios na história da salvação até à inauguração do reino eterno de DEUS. A visão de Daniel agora volta-se para o futuro, e particularmente aquela parte do futuro que futuro a Igreja mais diretamente. Da vasta tela da história apenas alguns pontos são focalizados por causa de seu interesse religioso. A soberania divina e a liberdade humana aparecem entretecidas num magnífico gobelino que se estende pelo corredor da história até o eschaton.

Os capítulos 7 a 12 são escritos do ponto de vista da eternidade, sub specie aeternitatis. Como alguém que tinha acesso ao conselho de DEUS (Jeremias 23:18, 22), e somente este acesso conferia autoridade ao profeta, ele delineia o futuro do ponto de vista do céu, de tal modo que acontecimentos chaves na terra são vistos como a repercussão de acontecimentos chaves no céu. Nenhum dos eventos históricos considerados é puramente político. Todos eles têm sua conotação religiosa. Cada profecia indicará que DEUS é soberano, que a história marcha rumo ao alvo de Sua própria escolha. O tema dominante é que na luta titânica pelo poder DEUS tem a última palavra.

A profecia do cap. 7 realça o fato de que embora os santos possam sofrer perseguição em mãos de poderes demoníacos, é a eles que afinal será dado o reino eterno (vv.22, 27). O cap. 8 exalta a verdade da vindicação do santuário celeste no qual se centraliza toda obra da salvação, ao passo que o cap. 9 revela aquele aspecto do plano da redenção pelo qual o termo final seria posto ao pecado, e a justiça eterna seria estabelecida em definitivo (v. 24). Os cap. 10 e 12 constituem uma grande visão com um prólogo (cap. 10) e um epílogo (cap. 12) do qual o clímax é a ressurreição dos santos mortos para a vida eterna (12:2).

A Perspectiva do Tempo

A profecia clássica, como regra, falta a perspectiva do tempo. Para os profetas clássicos como Amós e Isaías, todos os acontecimentos significativos do futuro fundem-se num grande “dia do Senhor”. Num oráculo referente à Babilônia Isaías juntou a destruição daquele império com o fim do mundo. Ver particularmente Isaías 13:6 -13 com sua conotação escatológica. De igual modo os cap. 65 e 66 de Isaías retratam a restauração de Israel depois do exílio em Babilônia como introduzindo um novo céu e uma nova Terra. À maior parte dos profetas não lhes foi dada a percepção de que longos intervalos de tempo separavam os acontecimentos que tentavam retratar. Assim, em Joel 2:28-30 o derramamento de Espírito precede sem outra “o grande e terrível Dia do Senhor”. Ageu descreve a restauração do templo depois do exílio como levando diretamente à era Messiânica (2:6-9). Mal. 3:1-5 equaciona a primeira vinda de Cristo com o julgamento final.

Mesmo os apóstolos não possuíam uma perspectiva clara como é evidente na pergunta que fizeram a Jesus antes de Sua ascensão: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel ?” (Atos 1:6). No tempo em que escreveu a primeira epístola aos tessalonicenses Paulo parecia esperar a vinda de Cristo em seus próprios dias (I Tes. 4:13 – 17). Somente em II Tes. 2:1-4 ele esclarece que a apostasia deve preceder o dia da volta de Cristo.

A ausência da perspectiva de tempo é evidente em outros escritos do Novo Testamento. Pode ter sido o desígnio divino não fazer a Igreja imediatamente cônscia do longo tempo que decorreria antes da vinda de Cristo. Fazê-la consciente teria sido muito doloroso para a maioria dos crentes, e poderia abafar a nota de urgência na proclamação do evangelho.

Coube a Daniel introduzir a perspectiva do tempo na visão do futuro. Isto se tornou possível quando a inspiração divina lhe revelou períodos proféticos cuja duração seria marcada por acontecimentos específicos. Somente agora os acontecimentos críticos na história da redenção podiam ser percebidos como separados por intervalos mais ou menos longos. Assim em Daniel 9 a vinda do Messias é claramente separada da volta do exílio por um intervalo de 483 anos. No livro do Apocalipse a perseguição da Igreja pelo Anticristo é vista estender-se sobre um período de 1.260 dias proféticos, isto é, 1260 anos literais (Apocalipse 12:6, 14 e 13:5).

A inclusão dos livros de Daniel e Apocalipse no canon das Escrituras demonstra a mão da Providência. Pois estes dois livros suprem um senso de perspectiva na visão profética do futuro como nenhum outro livro no canon. Não fosse pelas profecias de Daniel 7,8 e 9 e Apocalipse 11,12 e 13, a Igreja não saberia onde se encontra no curso da história. Mas graças a períodos proféticos claramente ligados a acontecimentos históricos específicos a Igreja pode saber que está à porta da eternidade.

Os Reinos deste Mundo Contra o Reino de Cristo

O cap. 7 divide-se naturalmente em duas seções: a visão propriamente dita (vv.2- 14), e sua interpretação (vv.15-27). A visão por sua vez pode ser dividida em duas partes: acontecimentos que transpiram na terra (vv.2-8 e 11-12), e acontecimentos que transcorrem no céu (vv.9-10 e 13-14). A interpretação também compreende duas etapas: a primeira pergunta de Daniel seguida pela breve explicação do anjo (vv.15-18), e a segunda pergunta de Daniel seguida por uma interpretação mais pormenorizada (vv.19-27).

Verso 2 a Visão é altamente simbólica, mas a maior parte dos símbolos já tinha sido usada por um ou outro dos profetas clássicos, e muitos deles são interpretados no cap. mesmo. Assim “ventos” simbolizam frequentemente conflito político entre as nações. Ezequiel descreve o ataque de muitas nações contra as montanhas de Israel nos termos seguintes:

“Então subirás, virás como tempestade, far-te-ás como nuvem que cobre a terra, tu e todas as tuas tropas” (Ezequiel 38:9). A luta perpétua entre as nações por um lugar debaixo do sol é comparada por Isaías com o bramido do mar e o rugido de suas “impetuosas águas” (Isaías 17:12-13). Em Apo. 17:15 as “águas” são interpretadas como “povos, multidões, nações e línguas”. É claro, então, que os “4 ventos do céu” que “agitavam o grande mar” (v.2) constituem um símbolo apropriado dos choques militares entre as nações em sua luta contínua pela supremacia.

Verso 3. Deste mar saem 4 animais. Estes animais são interpretados no v. 17 como “4 reis que levantarão da terra”. No v. 23 o quarto animal é interpretado como o quarto reino da terra, o qual será diferente de todos os reinos. É evidente, então, que os 4 animais representam 4 reinos que exercerão domínio universal por um tempo, do mesmo modo que os 4 metais da estátua de Daniel 2 simbolizavam 4 impérios.

Verso 4 “O primeiro era como leão, e tinha asas de águia”. O leão que errava pelas planícies da Mesopotâmia era um símbolo apropriado de Babilônia. Jeremias compara Babilônia a um leão (Jeremias 4:7 e 50:17). Ezequiel a compara a uma águia (Ezequiel 17:3 e 12).¹  A combinação de leão e águia era um motivo comumente usado na arte de Babilônia. Estátua de touros e leões alados costumavam guardar a entrada dos palácios na Assíria. A estátua de um leão de basalto foi desenterrada perto das ruínas de Babilônia e pode ser vista pelos turistas que visitaram o local.

O arrancar das asas do leão e a perda do seu caráter bestial parecem apontar para a fraqueza militar de Babilônia durante os últimos 20 anos de sua existência. Os sintomas de decadência militar eram visíveis muito tempo antes do colapso do poderio babilônico em 539

a.C.

Verso 5 O segundo animal era como um urso. Como o leão estava em casa nas planícies da Mesopotâmia, assim o urso tinha seu habitat nas montanhas da Pérsia. Os traços de crueldade e voracidade do urso são atribuídos aos medos em Isa. 13:17 e 18. Mesmo se a aptidão do símbolo nos escapa, é claro nas páginas da história que a Medo-Pérsia seguiu à Babilônia como a potência que dominou o mundo conhecido de então o fato do urso se ter levantado sobre um dos seus lados parece apontar para o fato de que primeiro os medos, e depois os persas, detiveram a liderança nesta monarquia dupla. É um fato que os medos foram os primeiros em se organizar num reino unido e a manter a Pérsia em vassalagem. Mas com a vitória de Ciro II em 550 a.C. as mesas se inverteram, e desde então reis persas ocuparam o trono dos medos e persas.

A afirmação “na boca, entre os dentes, tinha três costelas”, é geralmente interpretada como denotando as 3 principais conquistas da Pérsia: a Lídia em 546 a.C., a Babilônia em 539 a.C., e o Egito em 525 a.C. A estes outros territórios menores foram acrescentados cumprindo a ordem: “levanta-te, devora muita carne”. O domínio Medo-Persa se estendia da Trácia na Europa até a fronteira da Índia no Oriente.

Verso 6 O terceiro reinado é representado por um leopardo com 4 asas. O leopardo é conhecido pela sua rapidez e agilidade. Sua rapidez é realçada pela presença de 4 asas nas costas. O Império Greco-Macedônico, fundado por Alexandre o Grande é aqui simbolizado. O que o distinguiu do império precedente foi a rapidez de suas conquistas. Com a morte de seu pai Filipe da Macedônia, em 336 a.C., Alexandre, com apenas 20 anos de idade, tomou as rédeas do poder, e para a admiração de todos conseguiu unificar os estados gregos e lançá-los contra a Pérsia. Embarcou numa campanha relâmpago para conquistar o vasto território da Pérsia. Com um exército de 35.000 homens cruzou o Helesponto e derrotou o pequeno exército persa às margens do Grânico em 334. Toda a Ásia menor caiu em suas mãos em questão de meses. A segunda grande batalha foi travada em Isso, em 333 a.C., e a despeito da superioridade numérica do exército persa, sob o comando de Dario III, este sofreu uma derrota ignominiosa diante do exército greco-macedônico muito mais aguerrido. Esta vitória foi seguida pela conquista de Damasco, onde se achava parte do tesouro persa, e então pela conquista de Arvade, Sidon e Tiro, privando assim os persas de seus portos na Fenícia. No Egito Alexandre foi saudado como libertador do país da opressão persa. Sem perder tempo Alexandre voltou para a Ásia, atravessou os rios Eufrates e Tigre, e enfrentou os exércitos de Dario III pela última vez em Arbelas (Gaugamela), não longe da antiga Nínive, em 331 a.C. A derrota do inimigo foi tão completa que Alexandre não teve dificuldade em conquistar as cidades de Babilônia, Susã, Persépolis e Ecbatana em rápida sucessão. Nos anos seguintes seu exército penetrou através d território inimigo até a fronteira da Índia. Nunca tanto território foi conquistado em tão pouco tempo. Sonhando, enquanto residia em Babilônia, com a conquista da Arábia, Alexandre morreu em 323, quando tinha apenas 33 anos.

A divisão do império de Alexandre entre seus generais é indicada pelas 4 cabeças do leopardo. Estas encontram seu paralelo nos 4 chifres do bode peludo de Dan. 8:8, 21 e 22, o qual é interpretado pelo anjo como sendo o reino ou rei da Grécia, e os quatro chifres simbolizando os 4 reinos que o sucederam. A questão a ser decidida agora é se o império devia permanecer unido sob Antígono e Demétrio, ou dividido entre os 4 generais de Alexandre. A decisão foi feita pela batalha de Ipso em 301 a.C., na qual Antígono perdeu a vida. Como resultado dessa batalha o Império de Alexandre foi desmembrado: Ptolomeu conservou o Egito, a Palestina, e parte da Síria; Cassandro recebeu a Macedônia; Lisímaco ficou com a Trácia e uma parte da Ásia Menor, e Seleuco herdou a parte oriental do Império, incluindo partes da Síria e da Ásia Menor. O poderio destes reinos e suas fronteiras respectivas variaram durante os séculos, mas grosso modo o símbolo das “quatro cabeças” é bem apropriado para descrever as várias partes do Império de Alexandre até sua absorção gradual por Roma.

Verso 7 O quarto animal impressionou o vidente como “terrível, espantoso e sobremodo forte”. Seus “grandes dentes de ferro” lembram-nos a monarquia férrea em Daniel 2. O avanço inexorável dos exércitos romanos encontra eco na frase, “devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava”. Esta descrição é muito parecida com a do cap. 2, “como ferro quebra todas as cousas, assim ele fará em pedaços e esmiuçará” (v.40).

Em vista do paralelismo que salta aos olhos nas profecias dos cap. 2, 7 e 8, a interpretação dos sucessivos impérios deve ser coerente. Se no cap. 2 a cabeça de ouro é interpretada como Babilônia (vv. 37-38), e no cap. 8 o carneiro simbolizava o império seguinte, a saber a Medo-Pérsia (v.20), e este por sua vez é sucedido pelo império da Grécia (v.21), segue-se que nestes 3 capítulos o quarto império deve ser Roma. O desejo de escapar desta conclusão inspira-se não numa exegese objetiva do texto, mas no conceito que um escrito do segundo século nada podia saber quanto ao futuro papel de Roma. Em resposta a esta objeção, poder-se-ia dizer que ao passo que é apropriado falar das “quatro cabeças” do leopardo como simbólicas do desmembramento do Império de Alexandre em 4 partes, seria contrário aos fatos dizer o mesmo do Império Persa. Nunca se dividiu em 4 reinos como a profecia de Dan. 8:22 prediz da Grécia. Além disso, se o leopardo representa a Grécia, como comentaristas liberais mantêm, o quarto animal teria 10 chifres de acordo com Daniel 7:7 e 4 de acordo com 8:22. Seria uma maneira altamente confusa de interpretar os símbolos. Tudo se entrosa, porém, se o terceiro animal é interpretado como a Grécia, e o quarto como Roma. Isto corresponderia à ordem história dos grandes impérios, Babilônia, Medo-Persia, Grécia e Roma, na qual não há lugar para um império medo fictício.

Os “dez chifres” corresponderiam então aos dez dedos da estátua do cap.2, onde simbolizavam as nações da Europa nas quais o Império Romano do Ocidente se desmembrou sob o impacto das invasões bárbaras. Com o rolar dos séculos o foco de atenção na profecia muda gradualmente do oriente para o ocidente, do mesmo modo que o centro de gravidade do mundo político mudava na mesma direção.

Verso 8. À medida que o drama da história se desdobra, sua conotação religiosa se torna cada vez mais clara. Este verso marca de fato uma transição de considerações meramente seculares – uma sucessão de impérios – para as implicações religiosas da visão que é o assunto do resto do capítulo. Como já foi observado, o livro de Daniel é acima de tudo um livro religioso. Sua mensagem é antes de tudo uma mensagem religiosa. O contexto histórico constitui apenas um quadro de referência para suas afirmações teológicas.

Entre os dez chifres que simbolizavam a divisão do Império Romano em dez nações surgiu “outro pequeno”. A caracterização deste chifre como pequeno deve ser explicada por seu caráter antirreligioso. Seu papel, porém, é muito importante, pois recebe mais atenção do que qualquer outro aspecto da visão. Este chifre é dito possuir “olhos, como os de homem, e uma boca que falava com insolência”. Os olhos sem dúvida denotam inteligência e sagacidade. A partir da informação suplementar que é dada nos vv.20 e 21, e da interpretação nos vv.24 e 25, é manifesto que este chifre representa uma potência política religiosa, pois proferiria “palavras contra o Altíssimo”, perseguiria “os santos do Altíssimo”, e

cuidaria “em mudar os tempos e a lei”(v.25). Os Reformadores do séc. XVI eram unânimes em ver no “chifre pequeno” um símbolo do papado. Argumentos a favor desta interpretação se encontram no SDA Comentário Bíblico, Vol. IV. pp.826-829.

Versos 9 e 10. Estes versos transportam o leitor para a esfera celeste onde uma cena de julgamento é descrita. Em harmonia com seu conteúdo sublime, estes versos foram escritos em forma poética. O tribunal celeste é presidido pelo “Ancião de dias”. Esta descrição recorda textos como: “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade à eternidade tu és Deus”. Ou de novo Deuteronômio 33-27: “O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo de ti estende os braços eternos”. Uma visão do Deus inefável sentado no Seu Trono é descrita em Ezequiel 1:26-28. O profeta Micaías descreve a corte celeste em termos semelhantes: “Vi o Senhor assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua direita e à sua esquerda” (I Reis 22:19). À vista da riqueza de imagens que se encontram no Velho Testamento, é pedântico apelar a modelos babilônicos ou ugaríticos como a fonte de onde simbolismo foi extraído. Afinal Daniel não estava compondo uma peça literária, mas descrevendo o que viu em visão. Se paralelos devem ser procurados, estes devem ser nos escritos dos profetas que enchiam a memória do escritor, e não na mitologia pagã.

Qualquer dúvida sobre o significado do cenário desvanece diante da declaração: “assentou-se o tribunal, e se abriram os livros”(v.10). A noção de que há relatos guardados nos céus se encontra em textos como Êxodo 32:23; Sal.56:8; Mal.3:16, etc. Esta visão da corte celeste é um lembrete de que homens e nações deverão comparecer um dia diante do tribunal de Deus (Rom.14:10). Tiranos terrestres podem vangloriar-se por um breve tempo de suas proezas escritas em sangue, mas o Juiz de toda a terra os chamará um dia a prestar contas. O autor de Eclesiastes convida os leitores a ponderar: “teme a Deus, e guarda os seus mandamentos… Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras….” (Eclesiastes 12:13,14).

Verso 11. De novo a atenção do leitor é chamada para acontecimentos que transpiram na terra, a saber, a destruição do quarto animal, a natureza antirreligiosa do qual tornou-se patente no “chifre pequeno”. O tribunal celeste pronuncia sentença contra o animal, mas sua execução se realiza nesta terra. Embora o “chifre” persistisse em sua atividade insultuosa enquanto o tribunal celeste estava em sessão, sua destruição final é certa. O anúncio de que o “animal foi morto” é proléptico. Antecipa-se aqui a sentença que no final atingirá todos os adversários de Deus.

Verso 12 Este verso contém um pensamento parentético. Responde à pergunta na mente de muitos leitores: “Que aconteceu com os outros animais?” A resposta é que quanto aos outros animais seu domínio já tinha sido tirado, à medida que cada um foi superado pela potência mundial seguinte. O aramaico perfeito é melhor traduzido aqui pelo mais-que-perfeito, de acordo com o contexto, “quanto aos outros animais, seu domínio tinha sido tirado”. Mas embora cada animal tivesse sido suplantado pelo seguinte, “foi-lhes dada prolongação de vida por um prazo e um tempo”. Na transição de uma entidade política para outra nunca se dá uma exterminação total da população em causa, nem há perda total das realizações culturais. Deste modo alguns elementos de cada império sobrevivem no seguinte.

Verso 13 e 14 Estes versos focalizam de novo o cenário celeste: a vinda de um “como o Filho do homem”, a quem o Ancião de dias, em vista do julgamento realizado, confere um reino que jamais será destruído. Em vista do fato que Cristo assume para Si o título “Filho do homem” em passagens escatológicas como Mateus 24:27, 30, 39, 44; 25:31; 26:64, não resta dúvida que a cena descrita em Daniel 7:13-14 refere-se ao fato de Cristo receber o reino antes da Sua vinda a esta terra na consumação dos séculos. Que Cristo deve receber o reino antes de voltar a esta terra é indicado na parábola de Lucas 19:11-27. Aí Cristo fala de “certo homem nobre” – evidentemente uma referência a Si mesmo – que “partiu para uma terra distante, com o fim de tomar posse de um reino, e voltar” (v.12). A parábola continua no v. 15: “Quando ele voltou depois de haver tomado posse do reino…” É claro, pois que quando Cristo voltar a esta terra, Ele terá recebido o reino. Pouco importa se a parábola foi sugerida por um acontecimento histórico real, como por exemplo, o fato de tanto Herodes I como seu filho Arquelaus terem ido à Roma para serem confirmados reis. O fato é que o nobre da parábola representa a Cristo. ²

O reino lhe será conferido como resultado do julgamento pre-advento descrito em Daniel 7:9-10 e 13-14. Não há dúvida de que o elemento mais importante de um reino são os súditos, e não o território sobre o qual o rei exercerá sua soberania. O Tribunal Celeste não decide o direito de Cristo receber o reino. Este direito Cristo adquiriu por Sua morte sobre a cruz (Apocalipse 5:9). O que o tribunal celeste deve determinar é quem terá direito a ser um súdito do reino eterno de Cristo (Apocalipse 22:14). Esta questão de suma importância deve ser decidida na base do que está escrito nos livros (Daniel 7:10 Apocalipse 20:12). Nomes registrados no “Livro da Vida” podem ser apagados (Apocalipse 3:5). Somente aqueles que perseverarem até o fim serão salvos (Mateus 24:13). Há muitos que começam bem a jornada do cristão, mas que no final vêm “a naufragar na fé” (I T Segue-se do que acaba de ser dito que, ao receber o reino, o Filho do homem recebe o rol dos santos que constituem o reino. São Seus troféus e Sua glória; foram resgatados para DEUS pelo “sangue de Cristo”, homens “de toda tribo, língua, povo e nação” (I Pedro 1:18, 19 e Apocalipse 5:9). O elo lógico entre o julgamento de Daniel 7:9-10 e a entrega do reino ao filho do homem é este: o julgamento decide quem são os súditos que constituem o reino que é dado a Cristo. Ao receber os “filhos do reino”, Cristo recebe o reino. Salientemos uma vez mais que o tribunal divino não determina os méritos de Cristo para receber o reino, mas as qualificações dos súditos cujos nomes estão escritos no “livro da vida”.

Muita tinta tem corrido em argumentar a identidade do Filho do homem, e sobre se o reino é dado a Ele, ou aos Santos do Altíssimo. Uma vez que se reconhece que os santos são “co-herdeiros com Cristo”, o dilema desaparece (Romanos 8:17). Com efeito Daniel não faz distinção entre o Filho do homem receber o reino (v.14) e os santos receberem o reino (vv. 18, 22 e 27). Em consequência Cristo pode saudá-los no final dizendo: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34)

Alguns comentaristas pretendem que o ser designado por “um como o Filho do homem” representa um reino espiritual, contraste com os animais que simbolizavam os reinos deste mundo. Não é nada provável que este contraste entre “animais” e “homem” desempenhasse qualquer papel na escolha que Daniel fez dos símbolos. Afinal de contas, o Filho do homem não é símbolo de um reino celeste, mas recebe do Altíssimo um reino celeste.

Versos 15 a 18 Estes versos contêm o primeiro pedido de Daniel que se lhe desse uma interpretação sobrenatural dos momentos críticos na grande controvérsia entre a luz e as trevas. Como outros comentários no livro mostram, o profeta sempre sofria fisicamente e emocionalmente o efeito dessas visões (7:28; 8:27; 10:8, 16 e 18). Mas nada impede que ele peça a um dos anjos presentes o significado das cousas que acabava de ver. A réplica é extremamente breve, e aparentemente não continha mais do que o vidente podia suportar naquele momento. O anjo explica que os 4 animais representam 4 reis (reinos). Segue-se a afirmação promissora: “Mas os santos do Altíssimo receberão o reino”.

Versos 19 a 22 A curiosidade de Daniel volta-se agora para o quarto animal, cuja aparência retorna à sua mente com pormenores adicionais. Os versos 2 a 8 continham apenas um esboço muito breve da história universal. O profeta recorda agora pormenores que escaparam à sua atenção da primeira vez. A ponta que tinha “olhos com os de homem, e uma boca que falava com insolência” é vista fazer guerra aos santos e prevalecer sobre eles (v.21). A cena do julgamento também se lhe torna mais clara. Os santos podem sofrer perseguição da parte da ponta pequena, mas se lhes assegura que no tribunal divino sentença será pronunciada a seu favor, e que afinal eles receberiam o reino, reino este que jamais passará (v.22). É preferível ler com o aramaico, “o Ancião de dias tomou Seu lugar” no tribunal celeste, em vez de simplesmente “veio”. Trata-se neste verso de se fazer justiça aos santos, e não de entregar o julgamento aos santos. de acordo com o Novo Testamento somente depois de sua própria vindicação é que aos santos se dá o poder de julgar o mundo e os anjos (I Coríntios 6:2-3; Ap. 20:1 ss).

A guerra movida pelo chifre pequeno aos santos é antes de tudo uma guerra religiosa. Não é questão apenas de perseguição, prisão e morte. É questão de distorção de seu caráter e de sua crença. Com efeito o primeiro dever dos inquisidores era demonstrar a natureza herética das crenças e práticas dos acusados. Seu caráter cristão era posto em dúvida, e seu direito de se chamarem cristãos negado.

Como resultado, os santos necessitavam não só ser livrados do poder do chifre pequeno, mas ter verdadeiro caráter vindicado. A corte celeste preocupa-se com estabelecer o caráter dos acusados, e assim manter o direito dos santos, em vista de sua relação com Cristo, à sua herança eterna. Àqueles que são aprovados no tribunal celeste “foi dada uma vestidura branca” (Ap. 6:11). A vestidura branca é definida em Ap. 19:8 como “os atos de justiça dos santos”, ou simplesmente como “a justiça dos santos”. O que reclamam é o reconhecimento de seu direito à vida eterna (Apocalipse 6:10).

A natureza desta controvérsia religiosa se destaca em Ap. 12:10. Aí Satanás é designado como “o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante de nosso DEUS”. O direito do crente de herdar a vida eterna é contestado por Satanás, e precisa ser defendido por Cristo. Esta contestação se efetua no tribunal celeste, à medida que o registro de cada crente em Cristo é examinado, e explica porque o julgamento que precede o advento tem-se prolongado por tantos anos. Em vista das questões eternas em jogo, compreende-se porque Satanás tenta exagerar o desmerecimento de cada santo. Mas todo crente sincero pode descansar no fato que “temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo” (I João 2:1).

Verso 23 Encorajado pelo desejo de Daniel de uma compreensão melhor, o intérprete angélico prossegue com uma explicação mais pormenorizada do quarto animal e dos dez chifres: “O quarto animal será um quarto reino na terra”. Este verso, como já visto, fornece a chave para a interpretação dos outros animais: eles simbolizam reinos. O quarto animal, o Império romano, foi “diferente de todos os reinos” sobre tudo por causa de seu poder irresistível, “devorará toda a terra e a pisará aos pés, e a fará em pedaços, e por causa de sua maior coesão interior, que lhe permitiu dominar o mundo durante mais de meio milênio. Outro traço característico é que este animal possuiria dez chifres, que certamente representam as nações da Europa que resultaram do desmembramento do Império romano (v.24).

A atenção converge a seguir sobre o décimo primeiro chifre, que seria diferente dos primeiros e abateria a três reis. Os reformadores e os intérpretes, em geral, até o final do séc. XVIII, não tinham dúvida de que este chifre simbolizava Roma Papal, a qual, diferente de outras potências, exercia tanto autoridade política como religiosa. Os 3 reis que seriam abatidos a fim de abrir caminho para o papado foram os reinos arianos dos hérulos, vândalos e ostrogodos. Enquanto estas potências arianas eram influentes, o papado não podia exercer autoridade completa na Europa.

Seus traços religiosos são delineados no v.25. Seria uma potência blasfematória que arrogaria para si títulos e prerrogativas que pertencem a DEUS somente. Paulo deve ter tido em mente o mesmo poder, quando descreveu a apostasia que ocorreria na Igreja num futuro tão distante (II Tessalonicenses 2:4-12). João no Apocalipse também se refere a uma “besta” que proferia arrogâncias e blasfêmias (Apocalipse 13:5). A linguagem é quase idêntica à de Daniel 7.

A extensão das pretensões papais é ilustrada pela encíclica ditada pelo Papa Leão XIII, em 10 de janeiro de 1890, na qual afirma que “o pedagogo supremo na Igreja é o Pontífice romano. A união das mentes, portanto, exige… completa submissão e obediência voluntária à Igreja, e ao Pontífice Romano, como ao próprio DEUS”. No quinto concílio Laterano em 1512, Cristófer Marcelo disse ao Papa: “Tu é o Pastor, tu é o Médico, tu és o Governador, tu é o Vinhateiro, tu és outro deus na terra” (J. D. Mansi, Ed., Sacrorum Conciliorum … Collectio, 32:761).

Além de suas pretensões blasfematórias, o “chifre pequeno” perseguiria os santos do Altíssimo, e isto por “um tempo, dois tempos e metade de um tempo”. O papado admite ter perseguido os hereges, e defende o ato como um exercício legítimo de sua autoridade. Quanto a pormenores da perseguição do papado aos albigenses, valdenses, hussitas, lolardos e aderentes da Reforma no Países Baixos, Espanha, Itália, França, etc., ver O conflito dos Séculos, cap. 4, 5 e 6. Quanto à legitimidade da Inquisição que resultou na condenação de milhares de assim chamados hereges à prisão e à morte, A Enciclopédia Católica diz: “Na bula ‘Ad extirpanda’ (1252) Inocêncio IV declara: ‘Quando aqueles julgados culpados de heresia tiverem sido entregues ao poder civil pelo bispo ou seu representante, ou pela Inquisição, o podesta ou magistrado principal da cidade os prenderá imediatamente, e dentro de cinco dias no máximo executara as leis feitas contra eles’… Nem pode haver dúvida sobre que regras civis se tem em mente, porque as passagens que ordenam queimar os hereges impenitentes foram inseridas nos decretos papais das constituições imperiais ‘Comissis nobis’ e ‘Incosutibilem tunicam’. A bula ‘Ad extirpanda’ permaneceu desde então um documento fundamental da Inquisição, renovado ou reforçado por diversos papas, Alexandre IV (1254- 61), Clemente IV (1265-68), Nicolao IV (1288-1292), Bonifácio VIII (1294-1303), e outros. As autoridades civis, portanto, eram ordenadas pelos papas, sob pena de excomunhão, de executar as sentenças legais que condenavam os hereges à fogueira”.³

O período profético de “um tempo, tempos e metade de um tempo”, indica o período de supremacia papal, quando sua autoridade na Europa estava no auge. Apocalipse 12:14 parece referir-se aos mesmos eventos, pois aí é dito que o dragão, a saber Satanás, por intermédio de potentados terrestres, perseguiria a Igreja também por “um tempo, tempos e metade de um tempo”. O mesmo período aparece em Apocalipse 12:6 como “mil duzentos e sessenta dias”, e em Apocalipse 13:5 como “42 meses”. Como 42 meses de trinta dias fazem 1260 dias, é óbvio que todas estas profecias se referem ao mesmo período. Compreende-se de igual modo, que um tempo significa um “ano” de 360 dias. Daí resulta que o período de um ano, mais dois anos, mais meio ano de Daniel 7:25 corresponde a 1260 dias. Como a profecia é escrita em linguagem simbólica, é razoável supor que o termo “dias” seja aqui tomado simbolicamente. Tomado literalmente um período de 1260 dias, ou três anos e meio, seria irrisório considerando o vasto intervalo de tempo coberto por estas profecias. Basta dizer que os vários impérios que aparecem neste capítulo exerceram seu poder durante vários séculos. E se esta profecia, como seu paralelo no cap.2, deve atingir o final da história, quando DEUS estabelece Seu eterno reino, então o período de 1260 dias deve ser interpretado em termos de um dia por um ano, como vários textos bíblicos o sugerem (Número 14:34; Ezequiel 4:6, etc ).

Teríamos então um período de 1260 anos para o floruit da supremacia papal, o que se enquadra nos fatos históricos perfeitamente. Quanto a pormenores sobre a interpretação deste período profético, ver o SDABC, vol IV, pp. 834, 835. Para a validade da equivalência dia-ano em matéria de interpretação profética ver William H. Shea, Selected Studies of Prophetic Interpretation, pp. 56 a 85.

Muitos dos antigos intérpretes protestantes viam o começo do período dos 1260 anos em 538 a.D., quando os Ostrogodos foram forçados a levantar o cerco de Roma, desaparecendo assim a última ameaça à autoridade papal na Itália. Os ostrogodos, como os hérulos e os vândalos, tinham abraçado a forma ariana do cristianismo, e não reconheciam a autoridade do papa em assuntos eclesiásticos. Muitos intérpretes creem que os 3 reis do v.24, representam exatamente os ostrogodos, os hérulos e os vândalos, os quais foram abatidos um após o outro, deixando o papado livre para estender sua influência sobre áreas cada vez maiores na Europa. Esta influência foi grandemente cerceada pela Reforma Protestante no séc. XVI, e de novo em 1798, quando o General Berthier, obedecendo ordens do Diretório em Paris, prendeu o Papa Pio VI, enviando-o para o exílio em Valência na França, onde morreu dois anos depois.4 Embora outro papa fosse eleito em 1800, grande foi a perda de prestígio para o papado. Quanto aos pormenores da ascensão e queda do papado ver SDABC, vol IV, pp. 834-838.

Versos 26 e 27 Embora completa unanimidade sobre a interpretação de alguns detalhes desta profecia seja dificilmente atingível, é claro que o tribunal celeste terá a última palavra, e que uma sentença de morte será pronunciada sobre a potência que oprimiu os santos

nesta terra. “O tribunal, o mesmo tribunal descrito nos vv. 9 e 10, “se assentará”, pronunciando condenação para o opressor e vindicação para o “povo dos santos do Altíssimo”. Serão declarados dignos de serem súditos do reino de DEUS, e pela mesma razão se tornarão co-herdeiros com Cristo do “domínio eterno” que lhe será concedido pelo Altíssimo (vv. 13-14). Percebe-se assim que os vv. 26-27 suplementam a informação sobre o tribunal celeste dada nos vv. 9-14. Além disto, o v. 26 nos permite deduzir que o tribunal divino entra em sessão algum tempo depois do período da supremacia papal. É interessante notar que o meio deste longo período coincide com o zenite do poder papal durante o pontificado do papa Inocêncio III (1198-1216), que foi o promotor da cruzada contra os albigenses no sul da França, e o fundador do tribunal da Inquisição.

NOTAS

1. Ver S. H. Langson, “Semitic Mithology”, The Mithology of all Races, vol 13, pp. 118, 177- 282.

2. É instrutivo que o “Filho do homem” é interpretado como o Messias nos Oráculos Sibilinos, X, 414, e por Josué ben Levi. Ver G. F. Moore, Judaísmo, Vol II, p.335.

3. Joseph Blotzer, art. “Inquisition”, The Catholic Encyclopedia, Vol VIII, citado no SDABC, Vol IV, p.831.

4. L. Von Ranke, History of the Popes, Vol II, tr., pp. 458-9.

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