O Livro de Daniel: Comentário de Siegfried J. Schwantes, Ph.D. Capítulo 6

“Em contraste com o cap. 5 que retrata Belsazar como um monarca irresponsável, o cap. 6 reza mais como um panegírico de Dario. No enredo deste capítulo os cortesões e não o rei são os vilões. O rei aparece como protetor de Daniel contra as intrigas dos altos funcionários. Se o orgulho foi a fraqueza primária no caráter de Nabucodonozor e displicência no de Belsazar, inveja e ciúmes marcam o comportamento dos adversários de Daniel neste capítulo. Note-se mais uma vez que um retrato tão favorável de um rei pagão não evocaria nenhuma simpatia no clima altamente polarizado da época dos macabeus. A solução que muitos estudiosos propõem é de atribuir uma data muito anterior para a composição desta e outras histórias da primeira parte do livro, embora retendo uma data no segundo século para a seção profética. Mas esta solução contradiz a unidade evidente do livro. É preferível manter a data tradicional do livro que é apoiada pelo colorido local das histórias, e sua familiaridade surpreendente como pormenores históricos, do que sacrificar sua unidade.

A história começa com uma breve descrição administrativa do império. O alto número de satrapias, 120, parece discordar do número que se sabe ter existido nos dias de Dario I (522-486), de acordo com Herôdoto.1 É bem possível que uma satrápia designasse tanto uma província como suas subdivisões. Alguns historiadores gregos usam o termo “sátrapa” para oficiais inferiores do reino. A fim de garantir um controle melhor dos sátrapas deste vasto império três presidentes foram designados, dos quais Daniel era um (v.2). Uma grande preocupação era que o rei não sofresse dano, certamente na questão do recolhimento de impostos. Em virtude de seu “espírito excelente”, já em evidência nos reinados anteriores, o rei pensava confiar Daniel com responsabilidades ainda maiores. Infelizmente o rei não levou em consideração a inveja que iria despertar pela promoção de um estrangeiro acima de seus compatriotas. Como era de esperar, presidentes e sátrapas feridos em seu amor próprio procuraram uma oportunidade de acusar Daniel diante do rei em matéria de administração.

Seu despeito piorou ainda mais quando não lograram achar falta em Daniel “porque ele era fiel”. Ficaram perplexos diante da fidelidade do profeta. Vendo bloqueada esta via de ataque, seus adversários procuraram a seguir achar falta com sua religião. Se não houvesse um pretexto válido, eles criaram um (vv.4-5).

Acostumados com artimanhas legais conceberam a ideia de enredar o rei em assinar um edito proibindo durante um mês que alguém fizesse petição a qualquer deus, ou a qualquer homem, exceto ao rei. A fórmula apelaria à estima-própria do rei, e ao mesmo tempo colocaria a suposta lealdade dos funcionários numa luz favorável. Aparentemente contavam com a incapacidade do rei em adivinhar sua verdadeira intenção. Para garantir que o rei não mudasse da ideia quando percebesse o objetivo do interdito, chamaram sua atenção para a natureza irrevocável da “lei dos medos e persas” (vv. 8,12 e 15).

No que respeita a Daniel, não iria quebrar seus hábitos de oração por causa do edito real. Era-lhe mais importante obedecer a Deus do que aos homens. Em questões puramente seculares era hábito de toda sua vida conformar-se com as leis do país. Mas não permitiria que leis humanas interferissem com suas convicções religiosas. A despeito do interdito real, continuaria a orar três vezes ao dia no seu quarto, “onde havia janelas abertas da banda de Jerusalém”(v.10). Esta prática obedecia uma compreensão literal da prece de Salomão, “toda oração, e súplica que qualquer homem…fizer…estendendo as mãos para o rumo desta casa”(I Reis 8:38 e II Cron. 6:34).

A ocasião que os funcionários invejosos aguardavam não se fez esperar, e não perderam tempo em correr ao palácio com sua acusação vil. Lembraram ao rei as palavras do interdito, e o rei tomado de surpresa admitiu que de acordo com a lei dos medos e persas o decreto era irrevocável. Montgomery cita um caso no reinado de Dario III (336-331), quando o monarca decretou a morte de um homem inocente. O rei “imediatamente se arrependeu e culpou-se por ter grandemente errado; mas não era possível anular o que tinha sido feito por autoridade real”.2

Somente agora o rei percebeu que o interdito que assinara visava particularmente a Daniel. Em sua aflição o rei fez tudo que pode para livrar Daniel da sentença horrível que sobre ele pesava, mas em vão. Seus oficiais trataram de bloquear qualquer solução legal, invocando com hipocrisia a irrevocabilidade da lei dos medos e persas (vv.14-15). Mas o que o monarca não pode fazer por causa da força da lei, Deus faria. Esta é a lição principal do capítulo.

Contrariado em seus sentimentos o rei ordenou que Daniel fosse lançado na cova dos leões, mas não sem expressar a esperança de que o Deus a quem Daniel servia tão fielmente o livrasse. Pode-se imaginar que foram os oficiais invejosos que fizeram pôr uma pedra sobre a boca da cova, e que fizeram que a mesma fosse selada com o sinete do rei e o seu, “para que nada se mudasse a respeito de Daniel” (v.17). Foi uma demonstração tocante da alta estima em que o rei tinha seu servo, que ele passou a noite em jejum e certamente em súplicas. Ao romper do dia o rei dirigiu-se apressado à cova dos leões cheio de esperança de encontrar Daniel vivo. Com voz comovida o rei chamou a Daniel: “Daniel, servo de Deus vivo, dar-se-ia o caso que o teu Deus, a quem tu continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões?”(v.20). Para sua surpresa e alegria Daniel se achava vivo e pode contar ao rei como Deus enviara seu anjo e fechara a boca aos leões”(v.22) Uma referência a este acontecimento memorável é encontrada em Hebreus 11:33, onde este livramento é atribuído ao poder da fé. Dan. 6:23 diz que Daniel “crera no seu Deus”.

A letra da lei tinha sido obedecida. Esta só exigia que Daniel fosse lançado na cova dos leões (v.7). Não especificava o limite de tempo. Em obediência à ordem do rei Daniel foi tirado da cova. Furioso com a intriga de seus oficiais, o rei agora ordenou que eles e suas famílias fossem lançados na cova, onde foram imediatamente esmigalhados pelas feras.

A crueldade do ato é chocante, mas não podemos julgar uma monarca pagão pelas normas de uma época mais esclarecida. À vista dos massacres perpetrados em campos de concentração por uma nação dita civilizada, o desfecho é menos absurdo do que Montgomery, escrevendo em 1927, imaginava ser.

O capítulo conclui com um decreto ordenando que todo cidadão reverenciasse o DEUS de Daniel por ser ele o único DEUS que vive e cujo domínio dura para sempre.

Somente Ele salva e livra segundo Sua soberania. Com este relato da intervenção divina nos negócios terrenos conclui-se a primeira parte do livro. O propósito desta e outras narrativas foi de promover fé no DEUS que pode salvar aqueles que põem sua confiança Nele. A fé atingira o nadir entre os judeus exilados agora que os setenta anos preditos por Jeremias deviam expirar. Intimidados pelo poder e majestade de um império terrestre, os exilados punham em dúvida cada vez mais a soberania universal de jeová. A tarefa de Daniel, como de seu contemporâneo Ezequiel, era de reanimar um povo desmoralizado e de infundir em seus corações a convicção de que Jeová era infinitamente superior aos deuses do paganismo.

Ezequiel encerra a maior parte de seus oráculos com a fórmula de reconhecimento: “e sabereis que eu sou o Senhor Deus” (Ezequiel. 23:48; 24:24,27; 25:7,11; 26:6, etc). Israel devia ser levado a reconhecer que Jeová era o único Deus verdadeiro e que nenhum poder terrestre poderia frustrar Seus desígnios. Não haveria futuro para os judeus como nação se esta verdade existencial não fosse gravada em sua consciência uma vez por todas. Daniel, por sua parte, sentiu a necessidade de impressionar seu povo com a verdade de que DEUS é o Senhor da história, que Ele “remove reis e estabelece reis” (2:21), que um dia o reino visível de DEUS seria estabelecido, e que Sua soberania não passaria a outro povo (2:44), e sobretudo que os viventes saibam “que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (4:17-25). Não somente estas verdades tinham sido demonstradas nos dias de Daniel, mas eram igualmente válida para o restante da história do homem neste planeta. Se o passado tinha vindicado o governo benévolo de DEUS, o futuro o faria de igual modo.

NOTAS

1. Heródoto III. 89.

2. ICC, Daniel, p. 270.

3. Ibid., p.278.

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