Introdução ao Livro de Daniel – Parte 1

Comentário de Siegfried J. Schwantes

INTRODUÇÃO

Antes de iniciar um estudo detalhado do livro seria conveniente responder aos argumentos oferecidos pelos críticos contra a data tradicional do livro e sua autoria.


Data do Livro: De acordo com a afirmação de Daniel 1:1 Daniel teria sido levado para Babilônia em 605 a.C., e teria estado na ativa “até o primeiro ano do rei Ciro” (1:21), até pouco depois da queda de Babilônia em 539 a.C. De onde a tradição de que o livro foi escrito no sexto século a.C. Esta opinião foi mantida pela maioria dos comentadores judeus e cristãos até fins do séc. 18. Com o avanço da crítica literária desde então, a opinião da maioria dos estudiosos passou a datar o livro do segundo século a.C.


Os principais argumentos para uma data no segundo século a.C. são os seguintes: 


1. A descrição detalhada das guerras entre os Ptolomeus e os Selêucidas, que se encontra no cap. 11, explica-se melhor como uma pseudo-profecia, ou uma profecia post-eventum. De acordo com os críticos, a descrição corresponde bem com os fatos até 164 a.C., mas quando a tentativa é feita os aconte­cimentos subsequentes na carreira de Antíoco Epifânio a corres­pondência entre os acontecimentos e a predição começa a falhar.


Resposta: O argumento se apoia na pressuposição de que não há verdadeira profecia, ou pelo menos profecia de longo alcance, como as que se acham no livro de Daniel. Consequentemente, de acordo com os críticos, uma explicação natural deve ser proposta quando uma profecia bíblica parece corres­ponder aos acontecimen­tos previstos. A explicação proposta é que a profecia foi escrita depois dos acontecimentos, e não passa de uma pseudo-profecia. 


Para aqueles que creem na revelação divina e que os profetas foram habilitados por DEUS para prever o futuro, o argumento não é convincente. Se para DEUS o futuro é como um livro aberto não há razão para crer que Ele não tenha comuni­cado a Seus profetas tanta informação do futuro quanto em Sua sabedo­ria Ele tenha considerado próprio revelar. Um corolário do argumento dos críticos é que profetas como Amós, Isaías e Jeremias só trataram da situação históri­ca de seus dias. Adereçaram-se sobretudo aos problemas morais e religiosos contemporâne­os, exortando seus concidad­ãos ao arrependimento e reforma. Por que deveria um profeta do sexto século a.C. se preocupar com os acontecimen­tos políticos do terceiro e segundo séculos a.C., como parece ser o caso de Daniel 11 ? 


A resposta a essa objeção é que embora os profetas do Velho Testamento como regra estejam mais interessados nos problemas morais e religiosos de sua própria geração, eles se pronun­ciam frequentemente sobre juízos iminen­tes, os juízos que cairiam sobre gerações futuras, se não houvesse arrependimen­to genuíno. Jeremias nos capítulos 25 e 29 de seu livro prediz que o cativeiro babilônico duraria 70 anos. Além disto, há não poucas passagens nos profetas clássicos que referem-se ao “dia do Senhor”, um acontecimento que ocorreria num futuro indeterminado. As muitas referências nos escritos proféticos a um “dia” futuro com conotaç­ão escatológica indicam sua preocupação com o futuro tanto imediato como distan­te. 


A descrição detalhada que se encontra no cap.11 dos acontecimen­tos político-militares dos séculos que precederam a era cristã enquadra-se num propósito religioso. Sua intenç­ão era preparar a comunidade judaica para fazer frente a uma grave ameaça à sua própria existência. Uma predição tão detalhada estimularia a fé em DEUS como o Senhor da História, e como Aquele que não falharia a Seu povo num período crítico de sua existência como nação. A seu turno toda a profecia cumprida fortaleceria a fé naquelas porções da palavra profé­tica ainda não cumpridas (Daniel 9:24). Dada a inspiração divina do livro de Daniel, as profecias de longo alcance cessam de ser um ônus insuportável para a fé. 



2. Inexatidões Históricas – Os críticos alegam várias inexa­tidões históricas como argumento contra uma data no sexto século para o livro de Daniel. Um autor do sexto século estaria melhor informa­do quanto aos fatos históricos que lhe eram contemporâneos, argumentam os críticos. Entre as supos­tas inexatidões se encon­tram as seguintes:


a. O sítio de Jerusalém mencionado em Daniel1:1


Embora nenhum sítio de Jerusalém ocorrido em 605 a.C. seja mencionado nos livros de Reis ou Crônicas, II Reis afirma que “nos dias de Joaquim, subiu Nabucodonozor, rei da Babilônia, contra ele e ele, por três anos ficou seu servo”. (Ver também II Crônicas 36:6). Esta invasão de Judá não pode ser a de 597 a.C., porque Joaquim morreu no curso daquele ano. Comparar o v.6 de II Reis 24 com o v.10. De acordo com  as  Chroni­cles of Chaldean Kings (626-556 B.C.), publicadas por D.J. Wiseman, em 1956, pp. 25-27, Nabucodonosor depois de sua vitória sobre o exército egípcio em 605 a.C., em Carquemis, avançou vitoriosamente sobre a Síria e a Palestina, entre Abril e agosto do mesmo ano. Nabucodonosor ainda estava no Oeste quando seu pai Nabopolassar morreu em 15 de agosto, quando foi obrigado a voltar rapidamente a Babilô­nia. Joa­quim, que tinha sido posto no trono de Jerusalém pelo Faraó Neco II, foi obrigado a transferir sua lealdade a Nabucodono­sor. Se isto ocorreu após um breve sítio em Jerusalém não é claro, mas concebível. Em sua pressa de voltar a Babilônia, Nabucodonosor poderia ter aceito uma rendição simbólica de Joaquim, garantida pelo pagamento de tributo e a entrega de reféns, entre os quais se encontrariam Daniel e seus compa­nhei­ros. Uma tal hipótese não contradiria as afirmações de II Reis e II Crônicas, e tornaria verossímil a declaração de Daniel 1:1.


b. O fato de Belsazar aparecer no capítulo 3 como o último rei de Babilônia, quando na realidade Nabonido foi o último rei.


A ausência do nome de Belsazar das várias listas de reis de Babilônia, bem como do Canon de Ptolomeu, parecia à primeira vista um argumento formidável contra a credibilidade história  do livro de Daniel. Quando só se tinham à disposiç­ão as fontes históricas gregas, os críticos faziam muito do silêncio das fontes quanto a Belsazar. Este silêncio, porém, foi rompido quando tabletes cuneiformes foram desenter­rados e decifrados durante os últimos cento e cinqüenta anos. Lite­ralmente as pedras começaram a clamar à medida que o nome de Belsazar aparecia num número crescente de documentos associa­do com o de seu pai. 


H. F. Talbot, em 1861 e T. G. Pinches em 1882, e de novo em 1916, detectaram o nome de Belsazar associado com o de Naboni­do em juramentos e orações. Finalmente Sidney Smith demonstrou em 1924 que Nabonido, que esteve ausente de Babi­lônia durante dez anos, conferiu a regência a Belsazar duran­te sua longa estada em Tema1. Como J. C. Baldwim observa: “Uma vez que Belsazar foi para todos os efeitos rei, é pedantismo acusar o escritor do livro de Daniel de inexatidão por chamar Belsazar de Rei. A acusação é mais ainda fora de propósito à luz de dan. 5:7, 16 e 29, onde a recompensa oferecida a quem lesse a escrita misteriosa era de ocupar o terceiro lugar no reino. Evidentemente o autor sabia que Belsazar mesmo ocupava o segundo lugar depois de seu pai Naboni­do”.2


c. O fato de Nabucodonosor ser chamado o pai de Belsazar em Daniel 5:11, 18 e 22.


O termo “pai” tem uma conotação tão geral nas línguas semíticas antigas que não se pode atribuir erro a Daniel por empregá-lo no sentido de avô ou simples antepassado dinástico de Belsazar. Com efeito não há palavra para o “avô” nem no hebraico nem no aramaico. Basta dizer que Davi é chamado pai de diversos reis de sua dinastia: de Abdias (I Reis 15:3), de Asa (15:11), de Amazias (II Reis 14:30), de Jotão (15:38), de Acaz (16:2), de Ezequias (18:3), e de Josias (22:2). Os leitores não tinham dúvidas sobre o que o autor queria dizer. A hipótese de que Nabonido tivesse casado com uma filha de Nabucodonosor não deve ser excluída. Seu prestígio na corte retrocede a 585 a.C., na qual data ele mediou um tratado de paz entre a Média e a Lídia fixando o rio Halis como a fron­teira entre os dois reinos. Além disto, diversos reis assí­rios chamavam seus pais reis que eram realmente seus avós.3


d. A existência de um Império Médio que se seguiu ao de Babilônia e precedeu o dos Persas (Daniel 5:30; 6:1; 9:1).


O fato de Daniel afirmar que Dario, o Medo seguiu a Belsazar no trono de Babilônia não deve ser interpretado como se o autor assumisse a existência de um Império Medo que teria sucedido ao de Babilônia. O que os textos acima provam é que de acordo com o autor, houve um rei Dario o Medo que reinou em Babilônia entre a morte de Belsazar e o tempo quando Ciro o Persa assumiu o trono de Babilônia. 


De acordo com o livro de Daniel o Império Babilônico foi sucedido pelo Império Medo-Persa. Segundo Daniel 5:28, o reino de Belsazar seria dado aos “Medos e Persas”. Segundo o cap. 6 a lei do novo império é chamada “a lei dos Medos e Persas” (vv. 8, 12, 15). O carneiro do cap. 8 é interpretado como sendo “os reis da Média e da Pérsia”, a Média e a Pérsia sendo consideradas como uma unidade política. Do mesmo modo que o bode simbolizava a Grécia (v.21), o carneiro simboliza­va a Medo-Pérsia (v.20), um império e não dois. 


Embora as fontes históricas não nos permitam identifi­car Dario o Medo, o fato de que Ciro, segundo textos comer­ciais contemporâneos, não assumiu o título de rei da Babilô­nia a não ser um ano depois da queda da cidade, abre a possi­bilidade de um breve reinado de um rei desconhecido nas fontes extra-bíblicas, mas identificado no livro de Daniel como Dario o Medo. 


Na opinião de D. J. Wiseman, Dario o Medo deve ser identificado com Ciro o Persa. Ele propõe que Daniel 6:28 seja traduzido como segue: “Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, isto é, no reinado de Ciro o Persa”, tratando a con­junção hebraica waw como um waw explicativo5. J. C. Whitcomb sugere que Dario o Medo era outro nome de Gubaru, que é mencionado em dife­rentes textos como governador de Babilônia e do distrito além do rio6. Este Gubaru é sem dúvida o Gobryas que aparece nas fontes gregas. 


Afirmações dogmáticas sobre a identidade de Dario são descabidas à luz dos conhecimentos presentes, mas o que é certo é que o autor de Daniel não postulou a existência de um império da Média que teria precedido o da Pérsia. 


Em vez de exagerar as assim chamadas “inexatidões históri­cas” do livro, os críticos deveriam responder à per­gunta de como um autor do segundo século poderia ter sabido da existência de Belsazar como regente em Babilônia no momen­to de sua queda, quando os historiadores gregos que ele poderia ter consultado ignoravam totalmente o fato. Igualmen­te enigmático para os críticos é o problema de como um escri­tor do segundo século a.C. podia ter sabido que Nabucodonozor merece o crédito principal para a construção de Babilônia em sua última fase (Daniel 4:30). Comentando o fato, E. B. Pfeif­fer escreveu: “provavelmente nunca saberemos como nosso autor descobriu que a nova Babilônia foi obra de Nabucodonosor”, como os escavadores o provaram.7 



Continuaremos… 

__________


NOTAS 


1. S. Smith, Babylonian Historical Texts (Londres, 1924), pp. 84,88; R.R. Dougherty, Nabonidus and Belshazzar (Yale Series),    XV, 1929, pp.105-111.


2. Joyce C. Baldwin, Daniel (Intervarsity Press, 1978), p. 22.


3. Para Tglath-Pileser III ver ANET, p. 274; para Salmanasar III

   ANET, p.276.


4. W.H. Shea, “Darius the Mede: An Update”. AUSS, VOL. 20,   pp.229-276.                    


5. New Bible Dictionary, artigo “Darius”. p.293.


6. Darius the Mede (Eerdmans, 1959), pp. 10-16.


7. Introduction to the Old Testament, (Black, 1952), pp. 758-759.

Todos os textos sobre o tema do Livro Daniel publicados pelo Nossas Letras estão condensados aqui

Adicionar aos favoritos o Link permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *